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O Conto da Aia mistura ficção e realidade para criar futuro distópico de forte impacto

Divulgação/Spoiler Time
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Muitos são os futuros possíveis, e essa incerteza é um prato cheio para roteiristas de todas as vertentes, especialmente os de realismo fantástico e ficção científica, e a abordagem dos futuros possíveis gerou obras inesquecíveis, como o Exterminador do Futuro, Blade Runner, Black Mirror, Star Wars, entre outros. Mas, e quando esse futuro trabalha elementos presentes no dia a dia cotidiano, a ficção se torna ainda mais assustadora. É o caso de O Conto da Aia. 

Em O Conto da Aia, recentemente licenciado pela FOX para a Hulu (e sendo negociado com a Disney) para se fortalecer contra a onda de criatividade da Netflix, um grupo terrorista de extrema direita dá um golpe e toma o poder nos Estados Unidos após destruir a Casa Branca e matar seus principais líderes, impondo um Estado baseado nas leis do Antigo Testamento bíblico, onde a supremacia masculina e caucasiana impera, causando assim perseguições implacáveis contra homossexuais, casais inter-raciais, usuários de drogas e todos aqueles que estão fora dos padrões religiosos impostos.

Para piorar, nesse cenário a humanidade vive uma drástica crise de fertilidade, de forma que as mulheres comprovadamente férteis são caçadas e transformadas em Aias, figuras procriadoras submissas que precisam dar a luz e tem seus filhos dados para famílias ricas e poderosas. 

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Episódio a episódio vemos a coisificação de mulheres extremamente inteligentes, como o caso da mulher do comandante, bem como da aia que lhe é designada, que perde seu nome e ganha a alcunha de seu dono – Offred (ou “do Fred”, em tradução literal do inglês). Para que a linha dos homens poderosos seja mantida, as aias precisam ser mensalmente forçadas a ter relações com eles, chamado de ritual, sempre em seu período fértil, o verdadeiro estupro legalizado, deixando claro que nem tudo que é legal (de acordo com a Lei), é moral. 

Esse estado pseudo-religioso, aos poucos, se mostra cada vez mais corrupto, imoral e opressor, importando em sua narrativa elementos assustadores introduzidos no ideário popular por Adous Huxley em Admirável Mundo Novo e 1984, ainda que a barbárie das punições da série lembre mais o espetáculo da tortura que a mesma FOX apresentava em 24 Horas.  

Uma sombria narrativa, extremamente complexa e ao mesmo tempo fluída, que ganha contrastes estéticos em uma direção de fotografia magistral apresenta um elenco espetacular em suas posturas, falas e até mesmo reações, expressas ou contidas diante do cenário repressivo, dando ainda mais valor ao medo de uma ditadura de extrema direita governando o mundo. Certamente uma série para ver e refletir.