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Nada de copo meio cheio ou vazio, agora é a turma do tudo ou nada que manda

Não se trata apenas de chatice, a coisa é bem mais ampla e complicada que isso.

Tudo ou nada, sem meios termos

Todos já devem ter cruzado com alguém assim na vida. Já, outros, os têm na família, muitas vezes sem sequer saber. Podem parecer normais, sorridentes, de bem com a vida, mas, o escravizarão mentalmente de um jeito ou de outro.


Não se trata de nenhuma psicose grave ou alguém que devamos temer, é apenas o caso de um tipo de vampirismo moral que sempre fará com que você esteja em débito com essa pessoa. Ok, explicarei melhor o raciocínio com exemplos.

99% é igual a nada

Você é aquele tipo de pessoa que não tem lá muita pró-atividade para os afazeres domésticos, seja por preguiça, por cultura ou por ter quem o fizesse para você durante a infância inteira; aí, depois de adulto, certamente dividindo a vida com outras pessoas, é sacudido em alguma ‘D.R.’ de casal, para que comece a ajudar mais na casa. Você, uma pessoa que quer de fato evoluir na vida, começa a contribuir, digamos, fazendo a comida. Aí, a reclamação é de que você suja muita louça. Aí você vai lavar a louça, mas a reclamação passa a ser de que você molha o chão ao lavar tudo. Você seca o chão, já com o saco cheio de reclamações e rapidamente foge do local; não antes sem ouvir que o que você fez é o mesmo que nada…


Sim, nesse exemplo improvisado (que pode parecer real para muita gente), acaba o cidadão (ou cidadã) voltando à estaca zero, mesmo depois de ter feito algumas tarefas. Ou seja, para esse tipo de pessoas, 99% é igual a nada. Assim, ou você faz tudo, ou não fez nada, de acordo com o pensamento desse pessoal.


Não vamos entrar no mérito se você fez a tarefa mal-feita ou não. Apenas no fato de que você respondeu a um chamado, praticando uma ação, de boa fé, mas, ainda assim, não mudou o status inicial do ranço. E sabem por quê? Porque essas pessoas têm um tipo de distúrbio, semelhante à histeria, onde não importa o que você faça, elas nunca estarão satisfeitas. Mesmo que você entre nessa gincana esquizofrênica de atender a todas as reclamações, ainda assim uma nova tarefa aparecerá, juntamente a alguma crítica; pois a meta não é ter as demandas atendidas, mas sim, deixá-lo em débito eterno com a pessoa.
Meu pai, há alguns anos, me brindou com uma lição, talvez, valiosa em alguns sentidos: ao emprestar dinheiro a alguém que ele sabia que não iria lhe pagar, me mostrava que era melhor perder pouco agora do que muito lá adiante, além de que o devedor sempre lhe será subserviente de uma forma ou de outra. Então, é importante, muito mais do que reaver o empréstimo, investir em alguém que terá uma dívida moral com você.


Assim, levando essa lógica a um ambiente mais macro, teremos alguns justiceiros sociais e suas demandas eternas. Não que tais demandas não sejam dignas ou mesmo necessárias, em parte. O problema é que não se trata de reaver situações ou reparar coisas. Trata-se mesmo da dívida eterna que garantirá a subserviência social.

 

A problematização de tudo e de todos, o novo melhor vendedor do mundo

De um lado o opressor, do outro o oprimido. E assim, eternamente, uma contenda classista garantirá, de forma histérica, que alguém deva a outra pessoa algo. Seja por um contexto histórico, seja pontual, seja por novas regras de politicamente correto ou quaisquer outras demandas que pudermos pensar. Independe da demanda. O negócio todo é criar a divisão, justamente para que alguém exerça influência sobre outra pessoa. A iniciar pela divulgação da cultura onde a pessoa tem, primeiramente, aceitar que é culpada de algo. Bombardeada com uma série de coisas que para muitos poderiam apenas fazer parte da formação do conhecimento empírico, ou seja, tentativas e erros que praticamos na vida, afim de nos aproximarmos de um modelo nosso melhor no futuro, do que éramos antes; mas, que serão pintadas como características terríveis que devemos nos envergonhar e pagar o preço, mesmo que eternamente, por isso.


Vejo tal método, que lembra muito o ‘pecado original’ bíblico, praticamente por todos os lados na sociedade atual. Seja porque você assistiu filme pornô e isso hoje é considerado objetificação, seja porque usou uma peruca afro no carnaval e hoje isso é apropriação cultural, ou mesmo ofereceu desconto em uma loja a uma atriz global que resolveu achar que isso era racismo. Não importa o quão você estava de boa fé e sem a menor ideia de que isso ofenderia alguém. Afinal, não se trata do que você acha, mas sim de como irão pintar isso para que você aceite os termos, mesmo que ridículos, de qualquer forma de retratação proposta.

Dividir para conquistar

O mundo divide-se entre os que não querem divisão e os que acham que ao não querer divisão, já estaremos, automaticamente, divididos…


Paradoxal ou nonsense, tanto faz; a brincadeira acima, mais ou menos exemplifica nossa capacidade infinita de problematizar tudo na vida. Seja um filme infantil, seja uma música, seja uma pintura facial, uma obra de arte, uma roupa, um trejeito ou qualquer outra coisa que a mente possa alcançar.
Obviamente não quero aqui dizer que não devamos problematizar uma coisa ou outra. Por exemplo, a tal professora que simulou sexo oral em um aluno em plena sala de aula. Provavelmente a mesma deveria ter a melhor das intenções em uma aula de educação sexual, fazendo um ‘exercício diferente’ em sala de aula. Mas, como dizem, de boas intenções, o inferno está cheio… e essa frase pode contrastar com tudo o que foi escrito acima, afinal, a demanda dos problemas está vinculada a uma pauta. No caso este, da professora, para mostrar o quão despreparados alguns professores estão, após anos de influência do MEC e seus planos atabalhoados que nos despencaram a índices ridículos de educação.


Também, lembrar que os novos parâmetros fazem com que o senso comum fique acima do pragmático. Então, simplesmente, tais pautas sempre nos brindarão com demandas conflituosas, pois é sob elas que as narrativas serão construídas. A problematização é o combustível disso tudo. O efeito colateral é o observado diariamente: pessoas histéricas, insatisfeitas e patrulhando tudo e a todos, atrás de um bom problema para poderem sobreviver de seus ranços.

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Rogério Ketzer

Administrador com especialização em Psicologia Forense, co-autor do livro Psicologia Forense: conexões interdisciplinares. Atualmente, colunista com veia fortemente sarcástica e irônica.

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