O mundo é uma enorme pegadinha do Sílvio Santos

E daquelas do tempo do Ivo Holanda: tosca e que parece combinada só pra te irritar.

Por: Rogério Ketzer 10/08/2017 - 19:23/ Editado em 10/08/2017 - 19:33
Reprodução/SBT
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Sim, eu ando, ultimamente, olhando para os lados para saber se, a qualquer momento, alguém vai aparecer se identificando como da produção do programa, apontando algum cinegrafista escondido e me informando que eu acabo de participar de um programa de pegadinhas.

O problema é que acho que caí em todas elas somadas. Das moderadas às bisonhas; participei de todo tipo de situação tosca, surreal e ridícula. Fico na dúvida se é algum teste de paciência, que, caso eu resista por um período, a premiação será maior, ou, se é algum tipo de programa como o Show de Truman, o filme do Jim Carrey, onde sua vida era televisionada desde o nascimento, misturado com algum Big Brother onde só temos as provas do monstro.

Acho que, possivelmente, as câmeras que dizem ser da cidade, para controle de tráfego e segurança, ou os pardais de trânsito, na verdade, me televisionam em tempo integral para a diversão alheia. Neste momento, inclusive, enquanto eu escrevo a coluna, a câmera do meu notebook deve estar mandando a minha cara em broadcast para algum lugar.

Até aí, vá lá; o problema é que resolveram mudar o roteiro do programa nos últimos anos. Resolveram transformar tudo em um show bizarro e insano, onde o surreal passou a ser o novo real. Como se alguém chegasse para mim, fizesse um teste e dissesse: “pronto, você compreendeu as coisas até então; vamos mudar tudo”.

Daí, o programa vira um filme de paranoia a la Alfred Hitchcock. A gente tenta comentar com algum amigo ou familiar de que algo está errado e eles, com cara de paisagem, dizem que está tudo normal; olham para você com cara de preocupados e dizem que você precisa de ajuda. A música de suspense aumenta, você arregala os olhos e nota, de forma irônica, que ou aceita o pressuposto de que o surreal é a nova linha a seguir, ou se debate com isso e acaba sendo tratado como doido, sendo colocado à margem dos demais, ou se entupindo de remédios e indo para a terapia; ou em uma romaria por diversos centros religiosos, holísticos, esotéricos e coisas do tipo.

Assistir à televisão, ler jornais, participar de redes sociais e outras coisas do tipo parecem a todo instante desafiar você a expandir seus níveis de insanidade. Você assiste delitos serem justificados como atos democráticos, assassinos sendo tratados como vítimas sociais, ver sistemas tirânicos jurando que clamam por liberdade e assistir a uma proximidade de guerra entre dois lunáticos com armamento atômico ter contornos de um episódio de South Park, onde o ridículo do roteiro do desenho parece menos ofensivo que o real.

Talvez eu deva estar fora de algum contexto químico; afinal, não lembro de tanta coisa assim no tempo em que eu voltava para casa bebum das festas. Aí, sabe-se lá por que cargas d’água, eu resolvi parar de beber, já que não fumo, não uso entorpecentes e alucinógenos, ando sem dinheiro para consumismo, restando como mecanismo de fuga, apenas o sono em excesso. Pelo menos, dormindo, não tenho tido sonhos, ou não me lembro deles ao acordar, o que, no frigir dos ovos é bom, pois também não tenho pesadelos, igualmente.

Seja tanto na parte psicológica, quanto na química, pareço oscilar entre uma obra do George Orwell (1984) ou uma do Aldous Huxley (Admirável mundo novo); ambas, não por acaso, retratando distopias.

Como não entender a onda de depressão que se espalha como pandemia por aí? Como não compreender que muita gente está em surto porque se debate nesse surrealismo diário? Quanta gente não se afunda em drogas, sejam elas mais ou menos relativistas; tipo, açúcar ou crack, para driblar a mente de pensamentos ridículos como os que eu ando tendo?

Um amigo, certa vez, se admirou em saber que eu não tomava remédios, nem bebia ou me drogava e ainda conseguia tentar levar a vida. Compreendi que a escolha dele, diferentemente da minha, preencha as lacunas para o momento. Só que eu tenho a mania de querer ver além. Se o caminho trilhado leva a algum lugar, ou se ele é um beco sem saída. E, me debatendo nisso, entre análises de mim e do ambiente em que me meti; seja por minha escolha, ou por falta de; tenho notado que nada tem feito sentido. Como em um filme de universos paralelos, fui transportado para um onde tudo parece atentar contra o que eu achava ser lógico, correto, certo ou errado. Inverteram as regras vigentes e eu tenho que trocar a turbina do avião com ele em pleno voo.

Este é um texto sobre empatia. Sim, um texto para você, que em algum dos itens se identificou; você não está sozinho. O mundo que endoidou, não foi você. Apenas, por favor, pergunte-se se adaptar-se a um ambiente insano é bom negócio. Pergunte-se se parece lógico que você, em nome da insanidade alheia, abra mão da sua sanidade. Você pode concluir, inclusive, que é um bom negócio essa troca, pois sua vida até então também não era lá essas coisas. Pode ser que seja mesmo, sem dúvida; só que eu, apenas, sigo achando que a diferença entre mudança e melhoria, é gigantesca. Se não é para melhorar, prefiro não mudar. Embora, paradoxalmente, para toda melhoria, uma mudança se exija.

Talvez, com isso tudo, eu apenas conclua, como dizem meus amigos, que eu não deveria ter parado de beber.



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Rogério Ketzer

Administrador, especialista em psicologia forense, co-autor do livro 'Psicologia forense: conexões interdisciplinares' e contestador nato. Nasci sob a égide dos Ketzer (Herege em alemão), me transformando assim, em um herético de qualquer sistema.

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