Precisamos falar de amor

É impressionante o número de notícias ruins que nos bombardeia diariamente. As redes sociais, as revistas, os jornais, a televisão, os papos com os amigos, jogam um número infinito de notícias bombásticas que explodem em nosso colo jogando estilhaços pontiagudos para as nossas almas.

Precisamos reverter esse fluxo negativo, senão para o bem da humanidade, para o nosso próprio bem individual.

Exausto de ver tanto sofrimento, recentemente me propus um exercício saudável e curioso : evitar conversar assuntos ruins com os amigos pelas impressionantes próximas 24h. Por mais difícil que estivessem as coisas, olhar o lado bom da situação. Assistir, ouvir e ver apenas filmes, músicas e notícias que me fizessem sentir bem.

No início fiquei relutante. O meu lado masoquista falava mais forte. Fiquei com medo de ser uma fuga “covarde” de uma realidade inevitável, afinal de contas, como poderia fechar meus olhos frente às atrocidades que acontecem no Oriente Médio, na África, na América Latina, no Brasil, no Tocantins, em Araguaína, na minha vida pessoal? 

Vencido a primeira resistência, me lancei ao experimento: abri uma página no Facebook, “Músicas para matar a saudade”, que me remeteu imediatamente aos bons tempos de adolescente, onde as minhas maiores preocupações eram que profissão iria seguir e o que faria nas próximas férias escolares. 

Chegando em casa, exausto do trabalho, agradeci a Deus por ter saúde para trabalhar, uma casa para morar, comida para comer, uma família para voltar, uma memória para relembrar e valorizar tudo o que havia acontecido em minha vida até aquele momento. Perseguindo insistentemente este meu propósito, fiquei impressionado com o prazer e o bem estar que essa “simples” atitude estava me proporcionando.

Liguei a TV. Sintonizar em que canal? Antes que o vício me levasse para os telejornais, me conectei na Netflix e assisti um documentário maravilhoso chamado “Happy”. Uma onda de felicidade duradoura se instalou em meu peito. Uma dose de “morfina” anestesiou as dores d’alma. Fiquei deveras impressionado. 

Acredito que se esse exercício individual fosse realizado por um dia, por todos os habitantes do planeta, reverteriamos este fluxo negativo que acomete o planeta. Quem sabe não tentariamos repetir esta experiência por 2, 3, 30, 365 dias no ano? :)Como médico, desenvolvi uma estratégia de ver o belo no feio, a alegria na tristeza, a esperança no desespero.

 Alguém precisa ter esperança para poder passar esperança para os doentes, que muitas vezes, se apresentam em uma situação desesperadora. O que dizer para um jovem, na flor de sua juventude, quando o mesmo está prestes a operar de uma fratura na coluna cervical, que o condenará a prisão eterna no leito e à dependência total da bondade de seus familiares e amigos?

A medicina tem me proporcionado momentos de crescimento individual que às vezes fico impressionado e muito agradecido. Esta semana, um amigo cirurgião vascular, pediu que eu anestesiasse um velhinho que precisava ter uma perna amputada à nível do joelho.  Ao chegar à sala cirúrgica me deparei com um velhinho em posição fetal, com rigidez muscular intensa, com as articulações dos dedos contraídas e artrosadas, sem a outra perna que já havia sido amputada recentemente. Estava com os seus olhinhos fechados e sem emitir um único som sequer. Esse “vovozinho” tinha algo de especial: parecia que ainda tinha uma missão no planeta: mostrar – nos que o amor, o respeito e a gratidão ainda teimavam em sobreviver neste mundo insano. Seus familiares se importavam com ele e não sentiam o “peso de carregá – lo. 

Fiz a anestesia com receio que não suportasse as drogas e o procedimento cirúrgico. Absorvida a lição,  continuei a executar as tarefas variadas de um mapa cirúrgico extenso e complexo. A “roda” precisava continuar girando. No outro dia, ao chegar ao hospital para mais um dia de trabalho, resolvi visitar o “meu” vovozinho. Localizado o quarto, ao abrir a porta, me deparei com uma cena inusitada e emocionante : sua filha estava com um dedo enrolado em uma gaze molhada, hidratando sua boca ressecada.  O vovozinho, que até aquele instante não havia esboçado nenhuma reação (para mim), estava com uma expressão de prazer inigualável em seus pequenos olhos entreabertos, mamava como um filhotinho recém nascido e indefeso no dedo de sua filha carinhosa.Um sentimento estranho me tomou a alma.

Senti vontade de chorar. Meus olhos se encheram de lágrimas, não consegui transmitir uma frase muito complexa e extensa. Sua filha, compreendendo a situação delicada em que me encontrava, gentilmente abriu um leve e tímido sorriso com seus olhos também marejados. Fiz – lhe um afago na cabeça e sai. 

 

Precisamos falar mais de amor. Precisamos acreditar mais no amor. Precisamos praticar mais o amor.

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