Se você se acidentar…. reze, ore….

Muito preocupante está situação que está acontecendo nos Hospitais Públicos do Tocantins (provavelmente em vários hosiptais públicos  brasileiros também). Trabalho no SAMU e na anestesia, logo, atendo nas duas pontas de atendimento público de urgência : às vezes pego um acidentado na rua à noite e de manhã o anestesio para ser operado. 

Vamos ao problema gravíssimo que está acontecendo e colocando em risco toda a população que se acidenta e que precisa ser submetido à uma neurocirurgia emergencial. 

É de conhecimento público a fragilidade das células de nosso sistema nervoso central  (cérebro, medula e nervos), que não suportam por muito tempo falta de oxigênio ou de nutrientes.  Quando lesados, por algum processo traumático, o tratamento precisa ser imediato, na grande maioria das vezes, na tentativa de minimizar as lesões e o comprometimento neurológico. 

Antigamente, quando não dispúnhamos do SAMU, a demora no atendimento e/ou socorro inadequado feito por pessoas sem treinamento, causavam sequelas irreversíveis, quando não à sua morte, à esses pacientes.  Em um atendimento de urgência, existe um postulado valoroso à ser seguido pela equipe de resgate : o famoso “Golden Hour”:

A qualidade de atendimento na primeira hora do acidente é de imprescindível importância  para se aumentar as chances de recuperação e a qualidade do tratamento ofertado a estes pacientes.  De que adianta o SAMU se esmerar na qualidade e na velocidade do atendimento, se depois de adentrar a porta do hospital, ele ficará aguardando 4 horas para receber uma autorização de uma TC (vinda de Palmas), e depois, ainda mais 2 horas para se providenciar um transporte adequado para a realização do exame?

Esse absurdo está acontecendo. 

Imaginem se um paciente ficasse jogado 6 horas na rua sem um atendimento adequado. Toda a comunidade se revoltaria. 

Pois bem, praticamente está ocorrendo o mesmo absurdo, só que longe dos olhos da comunidade e das lentes da imprensa, já que o paciente aguarda dentro dos hospitais. Os parentes e amigos, apenas acreditam que o tratamento está sendo realizado com eficiência e responsabilidade, sendo que muitas vezes não está. 

Não por culpa dos médicos, enfermeiros ou auxiliares de enfermagem que se esforçam ao máximo para fazerem a sua parte, mas por causa de uma estrutura pública falida e com uma logística irracional de funcionamento. Um paciente que poderia ser atendido adequadamente, tendo sua vida salva e/ou uma boa recuperação de suas lesões , nestas condições adversas, tem o seu quadro clínico agravado.

É uma covardia o que estão fazendo com a população tocantinense. 

Os médicos que tentam acelerar o atendimento, que brigam e lutam, sem sucesso, para oferecer o mínimo de dignidade e o melhor tratamento para esses doentes, tem a desesperadora sensação, de estarem enxugando gelo.

Senhores cidadãos, precisamos ficar alertas.

Sair fazendo protesto e passeatas nas portas dos hospitais quando falta comida, é justo e válido, apenas acrescento e reforço o que acabei de dizer anteriormente : está faltando muito mais coisas que comida, remédios e exames. Está  faltando DIGNIDADE no atendimento público de saúde. 

Acordem enquanto há tempo, a próxima vítima poderá ser um de vocês ou um de nossos filhos.

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