Interesses revestidos no dia-a-dia

Arthur Schopenhauer escreveu os 38 estratagemas da dialética erística, todos descritos no livro com o título, não por acaso, de ‘Como vencer um debate sem precisar ter razão’.

Assim, essas estratégias de dialética, fazem com que possamos tergiversar e, é claro, enrolar a ponto de transformar um debate em uma simples contenda retórica. Para quem conhece tais estratégias, usá-las, por si só, já é indício de que a pessoa não está lá tão segura de si mesma. Mas, certamente, nem todos conhecem os estratagemas, mesmo os utilizando sem querer, ou, sendo bombardeados por eles diariamente. São vários; todos os dias em telejornais, discussões políticas e, até mesmo em redes sociais, encaramos diversos tipos de falácias.

Hoje, especificamente, vou falar sobre a de interesse revestido. Na verdade, ela faz parte do item de ‘falácias de relevância’ e, em miúdos, se trata de acusar alguém de ter algum interesse escondido por detrás de algo. Ou seja, acusar Fulano de apoiar Beltrano porque ele tem algum interesse escondido. Uma relação comercial ou ganho qualquer, por exemplo.

Pois, a acusação em si, pode ser falaciosa, embora, eu, novamente, irei adicionar alguns itens na linha de raciocínio. Não temos todos, de uma forma ou outra, algum interesse revestido em praticamente tudo o que fazemos? Não temos algum interesse comercial, por exemplo, ao ‘aconselhar’ alguém? Um vendedor não estaria obtendo vantagem direta em uma compra? Um ‘amigo conselheiro’ não está, talvez, tentando se aproximar mais da moça ao ouvi-la reclamar do atual namorado, ou mesmo querendo tomar o lugar dele? Um político não estaria tentando se validar como alguém simples e do povo ao almoçar em véspera de eleição em algum bandeijão? Notei, na última, muita gente comendo pastel com café ou cachorro-quente com suco em um pé-sujo de esquina, para depois viver de salmão ou churrasco de Wagyu.

No meu entendimento, todos temos interesses revestidos em alguma coisa. Resta é saber se tal interesse é altruísta ou egoísta. Qual tipo de vantagem a pessoa está obtendo disso. Podemos ter alguém realmente altruísta ou egoísta, dependendo da situação e da análise feita. Ora vejamos: uma pessoa fazer caridade, cercado de mídia, com direito a redes sociais e todo o resto, está tendo que tipo de interesse nisso? Em uma visão, ela pode estar aumentando a ‘corrente do bem’, levando consolo aos que necessitam, utilizando a mídia para que tal cadeia alcance níveis maiores. E por quê? Talvez para tornar o mundo um lugar menos pior, ou simplesmente, para diminuir a criminalidade nas áreas de atuação do auxílio. Também, podemos pensar que tal pessoa está tentando se validar como alguém ‘do bem’, tentando encaixar-se em um arquétipo de boa gente qualquer, para ser reconhecida como tal. Seja do ponto de vista psicológico, para afirmar-se como alguém bom, seja para compor uma imagem sua para, talvez, virar algum representante de classe qualquer; um líder comunitário ou um político que se elegerá em cima da plataforma do auxílio aos necessitados.

Como saberemos identificar um caso ou outro? Muito difícil dizer, afinal, nossas impressões podem, igualmente, estarem erradas sobre as intenções da pessoa. As nuances, geralmente, são difíceis de perceber. Algumas mais ou menos evidentes, como a citada acima, dos políticos tentando fazer papel de ‘gente simples’ ou ‘do povo’ através do que comem e onde comem (antes e depois das eleições).

Da mesma forma, podemos dizer que, em correlação com a máxima do Milton Friedman, a de que ‘não existe almoço grátis’ e que todos, direta ou indiretamente, pagam o almoço; os ganhos de alguém são vindos de ações diversas. Sejam tais ganhos percebíveis claramente ou não.

Outro dito popular, o de que ‘se conselho fosse bom, a gente vendia’, pode contrastar com a ideia de que mesmo em um bom conselho pode vir algo junto. Seja um proposto a fazer o sugerido em tal conselho, seja uma tentativa de manipulação revestida de preocupação ou anseio em ajudar. Tudo, ao final, pode vir com algo mais embutido junto. Meus amigos publicitários poderão, inclusive, lembrar da lei do ‘foco no benefício’, do marketing, onde vende-se não um produto ou item qualquer, vende-se um benefício. Não se compra uma caneta de milhares de reais para simplesmente escrever; compra-se tal caneta por status e para que a outra pessoa perceba ‘com quem está lidando’, ao vê-la sacada para uma assinatura ou esboço qualquer.

Portanto, não custa aqui levantar a questão para que nos perguntemos, a todo instante, os devidos interesses revestidos em notícias diárias, em colunas, resenhas, ‘artistas’ e ‘intelectuais’ se manifestando a todo instante e toda a série de fatores que, dia-a-dia, nos propõem uma narrativa polarizada. Pautas que fazem parte de uma construção de senso comum; e, justamente, nesse senso comum é que poderemos começar a ter ideias sobre o que estão nos vendendo subliminarmente e as devidas vantagens que cada um leva nisso.

Tudo é questão de percepção. Leva tempo, queima algum fosfato no cérebro, mas, é cada dia mais essencial tal prática.

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Rogério Ketzer

Administrador com especialização em Psicologia Forense, co-autor do livro Psicologia Forense: conexões interdisciplinares. Atualmente, colunista com veia fortemente sarcástica e irônica.

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