16 de Outubro – Dia do Médico Anestesiologista

Qual a visão de uma anestesista tocantinense que, em setembro de 2016, precisou fazer greve de fome para “tentar” receber o equivalente há 12 meses de salários atrasados do governo do TO?

No dia 16 de outubro comemora-se o dia do Médico Anestesista. Será que realmente existe algo para comemorarmos no Brasil atualmente?

Tudo começou há mais de dois séculos atrás, quando o dentista Thomas Green Morton, realizou, utilizando éter sulfúrico, a primeira anestesia com sucesso. O procedimento foi realizado no General Hospital Massachusetts, em Boston, em uma cirurgia de retirada de um tumor no pescoço. A descoberta da anestesia foi um grande avanço para a medicina, um verdadeiro divisor de águas no tratamento de várias patologias cirúrgicas. Antes, uma “uma simples apendicite” matava a maioria dos pacientes, agora, patologias complexas podem ser tratadas com segurança pelos cirurgiões.

Às vezes, somos mal interpretados quando comemoramos esta data separadamente do dia do médico, que se comemora dia 18 de outubro. Esta atitude se deve mais pela importância histórica do fato do que por vaidade da categoria dos anestesistas. De lá prá cá, muitas coisas mudaram. O homem conseguiu avançar muito no campo da ciência e da tecnologia na área da medicina, possibilitando que muitas vidas sejam salvas e muitos sofrimentos minimizados.

Infelizmente, apesar dos grandes avanços científicos dos tempos modernos, uma doença letal e mortífera, continua trazendo grandes prejuízos para toda a humanidade. Essa patologia cruel, destrói o caráter, embota a mente, endurece os corações, enfraquece o juízo.

Essa doença não pode ser encontrada no livro que classifica as doenças, CID (Código Internacional de Doenças), mas sim nos livros de direito que tratam de crimes e atos ilícitos. É a triste e nociva corrupção, que vem dizimando milhares de vidas inocentes por todo o planeta.

Estamos vivendo atualmente em nosso país um quadro grave de corrupção nunca antes visto na história brasileira, quiçá mundial. Gestores públicos se locupletam do suado dinheiro de nossos impostos para enriquecer as suas famílias e os chefes de sua quadrilha.

Enquanto se esbanjam no luxo e na riqueza adquiridos com o dinheiro roubado de nossos impostos, milhares de cidadãos brasileiros humildes morrem nas filas, nas portas, nos corredores, nas salas de emergência, nos centros cirúrgicos e nas UTI’s, sucateadas dos hospitais públicos brasileiros.

Faltam vagas, macas, medicações, esparadrapo, lençóis, fios cirúrgicos, anestésicos, limpeza, comida, salário digno e segurança para os profissionais da área da saúde exercerem com responsabilidade e dignidade o seu ofício: salvar vidas e minimizar o sofrimento. Está faltando tudo, menos ganância e irresponsabilidade para com a administração pública brasileira. Perdeu-se o medo, o respeito e a compaixão. 

Os administradores públicos brasileiros, com raríssimas exceções, parecem que só estão preocupados em “encher as burras” com o dinheiro desviado de suas falcatruas e escondê-lo Deus sabe onde. Até o surgimento do honrado Juiz Sérgio Moro, a certeza da impunidade era uma verdade. Pois bem, será que os médicos anestesista do Tocantins e provavelmente de outras cidades do Brasil, tem realmente alguma razão para comemorar esse dia tão importante para nós? 

Acredito que não.

Li, ontem, dia 15, uma reportagem do colunista Maurício Lima, da Veja on line, denunciando que os anestesistas do município de São Paulo estão sem receber há meses, acumulando uma dívida que já ultrapassa os 3 milhões de reais. (tags : Brasil, São Paulo, Saúde). Pensava que esse problema só estava acometendo cidades mais distantes dos poderosos centros econômicos e políticos do país; me enganei.

A situação é preocupante. Precisamos tomar uma atitude urgentemente, sob pena de faltar profissionais especializados para atender à todo o país.

Recentemente, no início do mês de setembro de 2016, iniciei uma greve de fome em frente ao Hospital Regional de Araguaina TO, na esperança de denunciar e sensibilizar as autoridades e a comunidade da grave e triste situação por que estamos passando: o equivalente há quase 12 meses de honorários atrasados ( quase 12 milhões de reais retidos – honorários referente ao pagamento de todos os anestesistas do estado – média de Rr$ 10.000 /mês/anestesista ).

Será que os gestores públicos, o ministério do trabalho, os procuradores, os juízes, os direitos humanos e a sociedade acreditam que não precisamos de nossos salários para honrarmos os nossos compromissos e sustentarmos as nossas famílias? Será que acreditam na “lenda urbana” que os médicos brasileiros e as suas famílias fazem fotossíntese ? Que não sentimos dor, medo, angústia e/ou fome? Que nossos filhos não precisam pagar escolas e faculdades para poderem estudar como faz os filhos de todas as pessoas normais? Que não ficamos doentes, tristes e/ou deprimidos? Como ter paz para poder exercer com dignidade o nosso ofício?

Precisamos encarar o problema de frente, a situação está cada dia mais grave.

Como a sociedade tem a coragem de cobrar do médico brasileiro a interiorização da medicina se nem com os nossos salários podemos contar? Como ousam nos chamar de mercenários e de gananciosos? Será que algum juiz, ou outro profissional qualquer,  aceitaria trabalhar nos rincões deste país empobrecido sem receber os seus salários? Não vou nem comentar as faltas de condições de trabalho e outros problemas ligados ao fato.

Há 17 anos saí de Vitória do ES, região sudeste, em direção ao interior do país. Acreditava na necessidade da interiorização do médico brasileiro, como forma de dar a minha contribuição para a construção de um Brasil melhor. Larguei minha família, meus amigos, meu conforto e me aventurei rumo ao norte do país. Fui chamado de corajoso por alguns e de loucos por outros. Fui para o Tocantins. Recebido de braços abertos pelo querido povo tocantinense, fiquei surpreso  e feliz ao notar que os hospitais públicos deste estado ainda funcionavam, proporcionando um atendimento digno aos cidadãos tocantinenses. Instalei-me na cidade de Araguaina TO, norte do estado. Há 17 anos chegávamos a fazer 1000 cirurgias de médio e grande porte, por mês, no Hospital Regional de Araguaina.

Participamos da primeira cirurgia cardíaca do estado, da colocação da primeira endoprótese para tratamento de um aneurisma da artéria Aorta. Sentia-me orgulhoso de estar fazendo parte da história deste lindo estado. Hoje, para nossa (minha) infelicidade, não conseguimos mais realizar 300 cirurgias por mês, e muitas vezes os doentes morrem deitados nas macas do corredor antes de terem a sua cirurgia realizada. 

O orgulho que sentia em trabalhar no SUS, há 17 anos, quando cheguei ao estado, se transformou em vergonha. Vergonha de entrar todos os dias e ver centenas de pacientes idosos, espalhados em macas e/ou deitados em lençóis pelo chão, nos corredores fétidos, de uma estrutura falida que já não consegue atender dignamente a sociedade tocantinense. Vergonha de não poder ter a certeza se poderei honrar os meus compromissos financeiros com a minha família e para com a sociedade.

Alguma coisa está errada. Precisamos tomar uma atitude urgente. É um absurdo o que estão fazendo com a medicina brasileira. 

Convivo diariamente com estudantes de medicina e tenho notado que estão tristes e sem esperança. A maioria deles optaram por fazer medicina por amor a humanidade, por vontade de fazer o bem e pela esperança de poder trazer, senão a cura, pelo menos o alívio do sofrimento de muitos pacientes.

O Brasil, a sociedade, os médicos pedem socorro. Estamos na UTI, minto, estamos deitados no chão frio e imundo de um corredor de um pronto socorro qualquer.

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